sábado, 26 de setembro de 2009

Ciência contra Religião e vice-versa

Ciência contra a religião e/ou religião contra a ciência é uma disputa antiga. Pode-se dizer que ela começou quando a ciência proclamou a sua independência da filosofia e da religião. Muitas vezes essa questão também é colocada como sendo a razão contra a fé e vice-versa. Neste caso a disputa é ainda mais antiga, ela iniciou com o surgimento da filosofia grega "opondo-se" à mitologia.
Em nossa época a disputa tem recebido estímulos de "todos" os lados. Por exemplo, nas questões éticas emergentes da pesquisa científica, principalmente genética. Ou, a partir do pensamento de Darwin que tem recebido destaque durante este ano o que reacendeu a defesa do criacionismo por parte de alguns setores da religião cristã. Ou, ainda, ações como o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque, atribuídas ao fanatismo religioso, inflamam as reações contra a religião por parte daqueles que consideram a religião a causa de todos os males. Aprofundam-se os fundamentalismos, sejam eles "religiosos" ou "científicos" e o foco da disputa cai sobre as diferenças e incompatibilidades entre a religião e a ciência.

Ao contrário de outras épocas, hoje sabemos que não é possível conhecer a verdade final nem pela religião e nem pela ciência. Ou seja, ciência e religião crêem que o que conhecem é verdade e por isto o conjunto do seu saber faz sentido. A ciência sabe que o seu conhecimento, para ser científico (segundo Popper), precisa ser refutável. A religião sabe que seu conhecimento é baseado na crença. Nenhuma das formas de conhecer pode se livrar da incerteza e da necessidade de crer em algum momento no seu processo de conhecimento. Por que, então, existe disputa entre as formas de conhecer?

A disputa se instala quando a incerteza de todo conhecimento é "esquecida" e quando, então, a crença dá lugar à certeza. Crer significa aceitar algo como verdade mesmo sabendo que talvez o conhecimento acerca da coisa não seja verdade. Ou seja, a crença tem como "ingrediente" necessário a incerteza. No momento que é retirada a dúvida, a crença deixa de existir instalando-se a verdade final. O conhecimento verdadeiro final (sem possibilidade de ser questionado) é dogmático e ditatorial, ele exige exclusividade e ele precisa destruir o concorrente. Nos fundamentalismos, a incapacidade humana de conhecer de forma definitiva é ignorada e a sua crença é elevada à verdade final. Toda crítica se torna impossível e a disputa cega se instala, impedindo assim um diálogo frutífero com vistas à cooperação mútua e à integração saudável dos lados científico e religioso do ser humano e da sua comunidade. Fica a pergunta: esta disputa é necessária?

São possíveis duas respostas. De um lado, a disputa é necessária se a pergunta é respondida a partir da maioria dos sistemas de sentido vigentes na ciência e na religião. A resposta é sim, tanto mais quanto mais próximo o sistema de sentido estiver do fundamentalismo, seja ele religioso o científico (cientificismo). A resposta também é sim, mesmo lá onde a relação entre a ciência e a religião não assume o aspecto de disputa e fica no nível da incompatibilidade. Os dois lados são mantidos "em paz", porém, não chegam a ser reconcilidados um com o outro, o que significa a fragmentação do conhecimento, do ser humano e da comunidade.
Por outro lado, esta relação não precisa ser de conflito. É possível criar um sistema de sentido que inclua todas as formas de conhecer. Isto porque, não existe (hoje sabemos) um tipo de conhecimento que garanta a verdade a partir do qual se possa decidir qual é o tipo de conhecimento (mais) correto. Mesmo que exista a verdade, ela não pode ser alcançada, e todo conhecimento adquirido na história humana, classificado em ciência, religião, arte, etc., busca a verdade final inalcançável. Por isso é mais coerente com o atual estágio do conhecimento, aceitar que tanto a religião como a ciência (e todos os outros tipos de conhecimentos humanos), têm algo a dizer sobre a vida do todo. Em outras palavras, todo o conhecimento é criação humana assim como toda a classificação dos tipos de conhecimento. Portanto, se foi possível criar o(s) sistema(s) de sentido vigente(s), que levaram à fragmentação do conhecimento e do ser humano mesmo, é possível também criar um sistema de sentido integrador ou, pelo menos, que não incentive a fragmentação.

Num sistema de sentido integrador tanto a ciência como a religião (e todos os outros tipos de conhecimento) são "humildes".  Ou seja, cada qual reconhece que a sua certeza não tem o fundamento necessário para poder excluir a certeza do outro, porém, cada qual pode e deve criticar a certeza do outro. O resultado é o processo de depuração mútua em direção ao conhecimento final, mesmo que ele seja inalcançável como tal.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Deus existe?

A última frase de um texto anterior (O que significa a palavra "Deus"?), diz: "Portanto, no sentido aqui proposto, todos nós temos em nossa vida real um Deus, dando-lhe este nome ou não". Obviamente esta afirmação é discutível a partir de outros sistemas de sentido pessoais e comunitários. O mesmo acontece com a pergunta se Deus existe. A partir de cada um dos diversos sistemas a resposta a ela pode ser sim ou não, dependendo não só do significado da palavra "Deus" como também da palavra "existe".

O que tem existência? Inquestionável, nos parece, a existência das coisas com que nos deparamos em nosso dia-a-dia, como as árvores, pedras, os seres humanos e as suas criações técnicas ou não. Ainda hoje as coisas que podem ser medidas e verificadas segundo o ideal da ciência no final do séc. XIX, nos parecem mais reais do que o que não pode ser medido, pesado, calculado, etc. Também nos parece ser existente a "base" física dos pensamentos humanos, o cérebro, os neurônios com seus processos químico-elétricos, etc. Mas, o pensamento que resulta dos processos cerebrais também existe? Acredito que todos concordamos que os pensamentos que temos "existem", mesmo que seja muito difícil quantificá-los como é possível fazer com o movimento de uma esfera de aço, por exemplo. Ainda que nos pareça mais real o que pode ser apreendido desta forma, já não é mais possível limitar a existência das coisas à ela. A ciência subatômica, por exemplo, impõem uma nova forma de pensar a realidade existente. A existência no mundo subatômico, por enquanto, faz melhor sentido quando apreendido pela matemática probabilística. É um mundo diferente e dependente do observador.

Assim, a existência das coisas é dependente do sistema de sentido do observador. É o observador com o seu sistema de sentido que dá existência ou não às coisas. Com Deus não é diferente, o sistema de sentido do ser humano religioso "permite" que exista algo como um Deus, enquanto que o sistema de sentido de um ateu não "permite" que exista, por exemplo, o Deus dos teístas e, ao mesmo tempo, pode estar "cego" para o seu próprio Deus. Portanto, como o fundamento para o sistema de sentido e da vida do ser humano, Deus existe. Obviamente, entendendo a palavra Deus com o sentido proposto aqui.

Por outro lado, e ao mesmo tempo, essa existência de Deus não é como a da pedra ou mesmo de um ser humano superior, que são passíveis de medições. Por isso também não é possível provar a existência de Deus pelo "resultado" de sua suposta ação. Por exemplo, frustrada será a tentativa do cristão que quer provar a existência de (seu) Deus afirmando que Deus responde às suas rezas. O Deus cristão não responde à todas as orações, na verdade, é impossível afirmar (de forma final) que ele tenha respondido a qualquer reza. Para o crente que orou, a cura de uma pessoa foi obra divina, para o descrente a mesma cura é resultado de processos outros sem a interferência divina, por mais desconhecidos ou estranhos que eles sejam. A cura ou a não cura de pessoas doentes como resposta a uma reza não prova a existência ou não-existência de um Deus, pois não há como decidir de forma final sobre isto. Portanto, Deus não está acessível às medições científicas nem aberto à observação dos resultados da sua eventual interferência. Um Deus assim, não existe.

Portanto, a partir do ponto de vista aqui proposto, Deus tem existência real enquanto fundamento de todo o conhecimento e da vida. Por isso, tanto os que aceitam a existência de Deus como também os ateus, "precisam" defender cada qual o seu Deus, como se estivessem (e estão) defendendo a própria vida. Quanto mais convencido estiver da sua existência e da veracidade do seu sistema de sentido, tanto mais o ser humano deísta, teísta, ateu, etc., defenderá o seu Deus, que é razão das sempre atuais disputas entre eles. Em si, esta (re)ação é totalmente natural e esperada pois é a conservação da própria vida que está em jogo. Porém, se for esquecido que todo conhecimento, tanto acerca da existência quanto o da não-existência de Deus é provisório, pode instalar-se a verdade final e com ela a necessidade de destruir o fundamento que afirma o contrário. Em lugar de destruir, a atitude que procede do reconhecimento da provisoriedade de todo conhecimento é a de se deixar questionar e desafiar positivamente pelo fundamento do outro, e, desta maneira, crescer no todo do conhecimento em busca da verdade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Verdade, Sentido e Vida

A aproximação feita aos temas tratados neste blog é filosófica. Ela deve ser entendida como sendo a reflexão racional acerca destes assuntos, com o objetivo de conferir-lhes sentido a partir de um critério de sentido. O critério é o da tentativa de reunião sob um sentido único de todos os conhecimentos humanos, preservando as particularidades de cada um.
Esta reflexão é racional porque é crítica e não porque ela seja uma reflexão meramente "matemática". Por isso, ao mesmo tempo, ela também não é um processo puramente racional porque a reflexão e o sistema de sentido, que são interdependentes, são processos "vivos".

Por ser vivo, o sistema de sentido "interfere" na vida real do ser humano e sofre as "interferências" desta. Além de racional, o ser humano é também, ao mesmo tempo, emocional, técnico, científico, espiritual, religioso, etc. É importante observar que o ser humano tem a capacidade de criticar a partir do seu sistema de sentido, tanto o seu lado racional quanto o emocional, tanto o religioso quanto o científico, etc. Mas ele também é criticado por estes seus "lados" e é na dinâmica de criticar e ser criticado que "vive" o sistema de sentido, o conhecimento, a reflexão, a emoção, etc.

O sistema de sentido que confere sentido às coisas e cria as regras de sentido acontece apenas enquanto processo vivo. Qualquer coisa dita/escrita sobre ele não passa de um extrato ou um retrato instantâneo do sistema, sem ser ele mesmo. A fotografia "fala" sobre a coisa nela "capturada", mas ela não é esta coisa mesma e está, neste sentido, morta. Quanto mais um sistema se aproxima da matemática mais "morto" está, e quanto mais um sistema se aproxima da vida, mais perto do espírito humano (vivo) ele está. A coisa capturada numa fotografia ou em algum texto, volta à "vida" quando é percebida com sentido pelo espírito humano. O sistema de sentido só existe em "tempo real" na vida do ser humano e na sociedade em que ele está.

Em outro texto, a verdade é apresentada como sendo provisória, isto, por conta de limitações humanas. Assim, o que confere verdade a alguma coisa é o sistema de sentido real "vivido" por uma pessoa ou comunidade. Mas, pela mesma razão, também é impossível afirmar que a verdade acerca de uma coisa não exista. Esta polaridade permitiu ao ser humano o desenvolvimento das suas diferentes frentes de conhecimento, nomeadas neste blog de maneira reducionista como ciência, religião e senso comum.

Há, portanto, um ponto comum entre estas três faces do conhecimento: o ser humano que não consegue afirmar verdades. Este ponto comum é a "origem" da fragmentação dos saberes e, neste blog, é o ponto de partida para as propostas de pensar uma re-união.

Esta abordagem filosófica pode parecer bastante distante da vida real. Principalmente para aquelas pessoas que em vez de crerem na verdade acerca de alguma coisa, estão convencidas de possuir a verdade final a respeito da coisa. Esta passa a ser o fundamento da sua "vida". Estar desta maneira possuído por alguma verdade final pode impedir a crítica, seja a partir do seu próprio sistema de sentido ou da crítica que sobrevem de outras fontes. Ficar possuído pela verdade pode "acontecer" a qualquer pessoa e não apenas às religiosas, por exemplo, alguém pode afirmar uma verdade que para a ciência e até para a religião é uma supertição ou, ainda, a pessoa "convencida" do cientificismo também tem uma verdade assim. Este estado pode colocar um fim no processo dinâmico do espírito em busca do sentido do todo. Esta pessoa acredita que já o tenha encontrado, seja pela fonte científica ou religiosa. Em si, isto não está "errado" porque sempre vamos aceitar como verdade final (mesmo não sendo) o que para o nosso sistema de sentido faz sentido. O "errado" é esquecer total e deliberadamente que esta verdade pode ser provisória, pois esta posição impede qualquer relação como iguais entre as partes do todo. Por exemplo, o religioso (fora ou dentro do ser humano) é (precisa ser) combatido pelo científico (fora ou dentro dele mesmo) e vice-versa, pois a verdade final de cada um dos lados se excluem mutuamente. Isto gera uma "esquizofrenia" que tende a desaparecer quando o ponto comum entre eles é o ponto fraco de ambos, a incerteza. Mesmo aceitando a incerteza como característica do conhecimento, o ser humano pode construir relações com sentido.

A incerteza, comum à todos os tipos de conhecimentos, pode se tornar em catalizador na busca do conhecimento que confere sentido ao todo e/ou às suas "partes", sejam elas do tipo "científico" ou do tipo "religioso". A polaridade entre elas não deve desaparecer, antes, devem se manifestar como forças iguais e não excludentes, que se desafiam e depuram mutuamente enquanto buscam pelo sentido/verdade do todo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O sistema de sentido e verdade

Em outro texto propusemos dissociar o sentido das coisas da verdade destas coisas. A razão para isto é a incapacidade humana de afirmar a verdade definitivamente e, porque, mesmo assim, as coisas podem fazer sentido. Ou, em outras palavras, o sentido que a coisa faz, e por isso a consideramos verdadeira, pode amanhã já não mais fazer sentido, ela pode perder a sua verdade por conta de uma nova experiência, uma nova ideia, um novo fato, etc. Encontrar a verdade final de uma coisa tornaria o conhecimento acerca desta coisa fixo e imutável, final.

Segundo K. Popper, só é possível falsear uma teoria, ou, ainda, não é possível afirmar a verdade de uma teoria. Isto significa que enquanto ainda não tenha surgido algo que coloque em dúvida a verdade acerca de uma coisa, ela continua fazendo sentido. E, enquanto isso, nós a tomamos como a verdade.

Por esta razão as verdades alcançadas pelo ser humano são provisórias e elas têm, por assim dizer, diferentes graus de "garantia" de verdade. Não existe conhecimento com 100% de garantia. A partir disso é possível dizer que todo sistema de sentido e a sua verdade são provisórios, mas, mesmo assim, conferem sentido às coisas e à existência humana. O ser humano consegue viver com sentido mesmo que este sentido esteja baseado em verdades com baixo grau de garantia ou, até, baseado numa inverdade. Mas ele não consegue viver tranquilo e de forma saudável se se instalou uma falta de sentido no seu sistema, nesse caso ele precisa restaurar a ordem perdida para recuperar a sua tranquilidade.

O aqui proposto sentido do todo, não é, portanto, a verdade final acerca do universo, obtido "de fora" com a ajuda dos deuses, da ciência, do senso comum ou, de forma mais real, por meio da estranha combinação entre estas três principais maneiras de conhecer. O sentido do todo é, antes, o sentido criado e atribuído às coisas pelo ser humano em seu meio social, com uma maior ou menor orientação e/ou tendências científicas e/ou religiosas. Este sentido corresponde com diferentes graus de garantida à realidade mesma e é o sistema de sentido que confere segurança/insegurança, tranquilidade/intranquilidade, alegria/tristeza ao ser humano indiviual ou social. Quanto mais abrangente puder ser este sistema de sentido, englobando os diferentes aspectos do ser humano real, como, por exemplo, o lógico, o racional, o emocional, o individual, o comunitário, o religioso, etc., maior será a sua realização como ser humano. Esta é a máxima verdade que o ser humano pode alcançar, verdade que por apenas uma ideia ou um fato novo pode perder a sua verdade.

No entanto, esta "lacuna" no conhecimento humano é mais ou menos superada pelo sentido de conjunto que o seu sistema de sentido lhe permite. Este sentido de conjunto será tanto mais saudável (no sentido amplo da palavra), quanto mais o seu sistema de sentido permitir as manifestações humanas reais, experienciadas por ele no seu dia-a-dia. Caso contrário, a sua vida passa a ser "departamentalizada" e fragmentada.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O sistema de sentido

O sistema de sentido neste espaço significa, em primeiro lugar, o conjunto total das relações de sentido estabelecidas acerca das coisas. Ou, dizendo de outra forma, é o nexo geral atribuído às coisas conhecidas. As coisas desconhecidas ainda não puderam ser integradas a este conjunto, mas "anseiam" por essa integração.

Um segundo aspecto importante e decisivo para a compreensão de sistema de sentido é que ele é vivo. Por exemplo, um livro que repassa conhecimentos acerca das coisas é, de certa forma, um "sistema" morto. Ele reúne de alguma maneira os conhecimentos do autor em torno de um assunto, a partir do sistema de sentido vivo deste. Este conhecimento pode se tornar vivo quando for aceito e incorporado ao sistema de sentido do leitor.
Cada ser humano "vive" a partir e para o seu sistema de sentido e, da mesma forma, a comunidade em que ele está vive a partir e para o seu sistema de sentido. Este sistema é vivo porque ele acontece de forma "plena" apenas nos seres humanos, incluindo-se aí a comunidade. Ele é vivo porque mesmo que seja possível escrever, por exemplo, o estatuto e as leis que definem o sentido de uma sociedade qualquer, é na vida dessa sociedade que o sentido se torna real. É na vida real do ser humano que ele realiza o seu sentido. E esta "realização" é dinâmica, a cada instante são incorporados novos conhecimentos e são criadas novas normas de sentido, etc. Um texto escrito ou mesmo uma experiência relatada por um ser humano, são extratos do seu sistema de sentido que, mesmo válidos, estão "mortos".

Um terceiro aspecto. Se o sistema de sentido, na sua forma "plena", se realiza apenas na vida do ser humano (ou na comunidade), então ele é influenciado e influencia também todas as áreas da vida. Assim, a realização dinâmica do sistema de sentido do ser humano/comunidade considera também os "sentimentos" e não apenas a "razão". Também os fatores biológicos/sociológicos influenciam o sistema de sentido. O sistema de sentido ainda sofre a influência dos desejos e dos diversos aspectos vitais como, por exemplo, a preservação (ou não) da vida (biológica, psicológica, sociológica): numa hora de "aperto" posso fazer coisas que não fazem sentido para mim ou, até, coisas que considero moralmente erradas. Em uma palavra, o sistema de sentido real não existe fora da vida do ser humano como um todo e da sua comunidade e, reduzir o sentido a apenas "um ou dois" aspectos da vida humana, no sentido aqui porposto, é reducionismo.

Assim, é a partir de todas as áreas do conhecimento humano, "temperadas" pelos aspectos característicos da vida de cada indivíduo/comunidade que é formado o sistema de sentido. Desde as disciplinas mais "duras" e precisas, distantes do real como a matemática e a física, até as menos precisas e mais próximas do real, como a química, a biologia, a psicologia, a sociologia e a história. No sentido aqui proposto, também não dá para excluir do sistema de sentido os aspectos filosóficos e metafísicos da vida humana/comunitária. O conhecimento na vida real, além de ser um processo racional é, também, ao mesmo tempo, (pelo menos) um processo emocional e religioso.

Por último é preciso dizer que "sentido" não é necessariamente "verdade". Algo pode fazer sentido para mim e mesmo assim não ser verdade. Um exemplo clássico é a visão de mundo geocêntrica, aceita por muito tempo como verdadeira. Porém, o mais importante é saber que eu não preciso encontrar a "verdade" para que eu encontre o "sentido". Por isso, é mais importante buscar o sentido das coisas em vez de buscar um acesso privilegiado ao conhecimento verdadeiro, como acontece na disputa entre os defensores do cientificismo e dos defensores de alguma religião fundamentalista. Esta disputa fragmenta o sentido do todo, mas é justamente o sentido do todo que o ser humano almeja, pois é o sentido do todo que proporciona alegria e tranquilidade e, como consequência, saúde ao ser humano e sua comunidade.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O que significa a palavra "Deus"?

Certamente não há "uma" resposta para esta pergunta. Principalmente porque não existe nenhum parâmetro ou sistema de sentido a partir do qual se possa respondê-la de forma consensual. Em cada um dos sistemas de sentido e em cada religião esta palavra diz coisas ligeira ou totalmente diferentes entre si.

Para os propósitos deste espaço, a tentativa de resposta à pergunta não passa de uma proposta de redefinição. O contexto desta tentativa é o "todo" do conhecimento, definido em outro texto.

Aqui, "Deus" é uma palavra que não faz referência a um deus específico, por exemplo, o Deus pessoal do cristianismo ou qualquer outra divindade ou força divina. Mesmo assim, ela não é uma palavra vazia. Ela identifica aquela coisa "comum" a todos os seres humanos na busca pelo sentido do todo. É aquela coisa superior última, ou o fundamento último sobre o qual decidimos apoiar o conhecimento e, por fim, a própria existência. Agora, se esta coisa pode ser algo (ou alguém) transcendente ou se ela é imanente, isto é decidido pelo sistema de sentido do indivíduo em uma comunidade.

Mas, aqui, a palavra "Deus" também não se restringe apenas aos deuses referidos no parágrafo anterior. Ou seja, também tem um Deus aquele indivíduo que por causa do seu sistema de sentido não pode aceitar deuses transcendentes, deuses pessoais ou amuletos etc. Para este (e sua comunidade) "Deus" é aquilo que é o fundamento para o seu sistema de sentido. Isto poderia ser, por exemplo, o método científico.

Portanto, Deus aqui não designa um Deus ou deuses, e sim, aquilo sobre o qual descansa a necessidade humana de apoiar o seu conhecimento e a sua vida, antes mesmo de nomeá-lo. Esta "necessidade" é decorrente do "incômodo" sentido pelo ser humano diante do desconhecido (leia: O sentido das coisas I) e da incapacidade humana de alcançar a verdade acerca das coisas de forma imediata e inequívoca, tanto pela religião como pela ciência.

A religião tem dificuldade de aceitar esta definição porque o seu Deus é um conteúdo específico que exige maior ou menor exclusividade. Na ciência esta dificuldade reside no fato de ela, normalmente, se perceber (e até exigir) como livre de interferências humanas. Obviamente isto é uma idealização da ciência.

Mas, em ambos os casos, é possível imaginar esta definição como possível se, por um instante, cada qual permitir uma pequena brecha para o outro no seu sistema de sentido. Esta brecha também é possível porque nenhum lado pode afirmar a verdade. E ela é necessária para possibilitar o diálogo frutífero (não um monólogo ou uma imposição) entre ciência, religião, arte, senso comum, etc. Cada qual permanece com o seu Deus e uma eventual mudança acontecerá pela aceitação de um outro sistema de sentido vivo, fruto de diálogo, na tentativa de alcançar desta forma um sistema de sentido mais abrangente.

Portanto, no sentido aqui proposto, todos nós temos em nossa vida real um Deus, dando-lhe este nome ou não.

Texto relacionado: O sentido das coisas II

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O sentido do todo

Todas as coisas querem fazer sentido no conjunto todo das coisas. Ou, em outras palavras, o ser humano "precisa" integrar todo o seu conhecimento sob um sentido "único". Os sentidos individuais precisam ser relacionados com sentido entre sí, até que nenhuma coisa fique excluída. Qualquer coisa excluída do sentido todo é percebido pelo ser humano como algo estranho que fica "incomodando", até que, de um ou de outro jeito, ela seja integrada ao todo do conhecimento. Quando a integração de uma coisa não for possível, ela precisa ser descartada como não "verdadeira", não "existente" ou simplesmente "esquecida" (se é que isso é possível). Evidentemente existem outras formas de "descarte", porém, a intenção sempre será a de preservar a integridade do sentido do todo.

No texto anterior "O sentido das coisas II" afirmei que o sentido das coisas é criado pelo ser humano. Não é só isso, ele também cria as normas do fazer sentido. No senso comum essas normas são em grande medida inconscientes e têm aspectos "científicos" e "religiosos". Na religião elas são derivadas de alguma divindade enquanto que na ciência elas são os métodos científicos reconhecidos. Portanto, no mundo atual, não existe apenas uma regra aceita por todos que "ensine" o que faz sentido ou não. Na verdade não existe unanimidade nem dentro do grupo da ciência nem no grupo religioso e, muito menos, no senso comum. Esta é uma das razões por que existem religiões que não se aceitam e vários métodos científicos. Esta diversificação não deveria ser entendida necessariamente como um problema. O problema surge quando se crê que o ser humano é capaz de reconhecer a verdade final acerca das coisas e por isso ele "precisa" descartar as normas que incomodam. No entanto, por limitações do conhecimento humano é impossível, tanto no âmbito da ciência como também no da religião, encontrar a verdade final. Mesmo assim o problema é atual porque, grosso modo, tanto a religião fundamentalista como o cientificismo acreditam que, de um ou de outro jeito, têm esta capacidade. Não existe nenhuma norma acima das duas, aceita pelas duas, que pudesse integrar o sentido de cada uma delas num todo "único". Cada qual acredita ser esta norma de sentido final.

Mas, o que devemos entender como o "todo"? Difícil, talvez, impossível responder a esta pergunta, principalmente porque não existe nenhuma norma de sentido reconhecida por todos os lados envolvidos, norma pela qual se pudesse decidir a respeito. As duas grandes formas de conhecer hoje, a ciência e a religião, nas suas formas mais radicais, respectivamente, o cientificismo e a religião fundamentalista, sequer aceitam discutir a questão, o que dificulta ainda mais definir o que seja o "todo". Cada qual considera a sua norma de conferir sentido aquela que define o todo.
Por isto, eu considero o "todo do sentido" como o conjunto dos "lugares" onde o ser humano criou sentido ao longo de sua história, ou seja (simplificando bastante), a religião, o senso comum e a ciência. A razão para esta opção é simples, ainda não existe norma que autorize descartar (com certeza final) qualquer uma destas formas e todas elas ainda se fazem bem presentes atualmente, conferindo sentido ao ser humano em sua comunidade.

Vale aqui fazer uma observação importante. Obviamente, além das três formas de conferir sentido aqui mencionadas, existem outras. Uma das mais importantes é a Arte, que também é relegada à um segundo plano quando se trata de "conhecimento verdadeiro", pois também ela não consegue apresentar fatos verificáveis pelo método científico. Mesmo assim, ao longo da história humana ela conferiu e confere ainda hoje sentido às coisas.

Seria possível integrar com sentido todas estas formas de conhecer? Uma forma final certamente não é possível encontrar, pelas razões já apontadas. Mas, seria possível encontrar uma forma de pensar e conferir sentido que contemple o todo do sentido aqui proposto, onde a diversidade do real contribua para um sentido "único"? O sentido "único" aqui é o sentido alcançado com a cooperação das diversas formas de conhecer, sem que elas "precisem" excluir-se mutuamente como acontece sob a paradigma vigente atualmente.

A minha aposta é que, a partir do estado de incerteza atual, seja possível gestar uma forma de pensar com sentido do todo, um sistema de sentido que fomente a inclusão também na área do conhecimento como já vem acontecendo em outras áreas.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O sentido das coisas II

As coisas “reclamam” por sentido, elas querem ser conhecidas, como comentei em "O sentido das coisas I". Mas é importante notarmos que, ao contrário do que esta afirmação parece dizer, no fundo, é o ser humano que não consegue conviver com algo sem sentido, com algo que ainda não foi relacionado e incorporado com sentido ao todo do seu conhecimento. Por isto ele propõe, testa e aceita teorias científicas, teorias filosóficas ou de um jeito "solto" os conhecimentos e as experiências diárias, etc., tudo com o objetivo de incorporar com sentido o novo conhecimento ao conhecimento já anteriormente adquirido.

Quando o ser humano encontra o sentido de uma coisa, ele o aceita como "a verdade" acerca desta coisa. Encontrar o sentido ou o conhecimento verdadeiro é o seu desejo pois acredita que é este conhecimento que lhe daria o sentido final, um conhecimento ao qual ele não precisaria e nem poderia acrescentar algo a mais. Neste conhecimento o ser humano estaria seguro. Quanto mais abrangente este conhecimento, maior a sua segurança e tanto maior também o sentido do "todo". O ser humano ao encontrar o sentido, além de segurança, percebe também alegria e outras reações "emocionais" que são manifestações para além do puramente racional ou lógico. Nesse contexto, não tem como não lembrar do Arquimedes gritando "Eureka!" pela rua. Em outras palavras, encontrar o sentido das coisas é algo que "atinge" o ser humano como um todo.

Mas onde está o sentido verdadeiro das coisas, como alcançar o conhecimento verdadeiro? Esta é uma das grandes questões da humanidade e que levou à grandes avanços no conhecimento e à muitos debates em todas as áreas do conhecimento. Achou-se em épocas antigas, e ainda se acha hoje, que o sentido final estaria em algum do muitos deuses que se nos apresentam. Achou-se no final do século XIX e início do século XX, e ainda se acha hoje, que a ciência tem a única forma de alcançar o sentido real e final das coisas. Ambas as formas têm o sentido ou a verdade acerca das coisas "imposta" de fora do ser humano. De um lado, os deuses dizem a coisa verdadeira e, pelo outro lado, a ciência com o seu método, como que arranca das coisas a sua verdade.

Os desenvolvimentos na busca pela verdade e pelo sentido das coisas durante o século XX, têm, no entanto, levado a uma constatação que é, pelo menos, conflitante se não paradoxal. O ser humano não tem como conhecer de forma verdadeira e final, ele precisa se contentar com a incerteza do seu conhecimento, essa incerteza é decorrente das limitações humanas. Isto implica que, mesmo que exista um Deus que diga a verdade última, eu não posso ter certeza disso. Mesmo que exista ou venha a existir um método científico que me revele o sentido último das coisas, não posso ter certeza disso. No estágio atual do pensamento, precisamos continuar crendo que a "lei" de um deus qualquer diz a verdade acerca de uma coisa. Assim também, cremos numa determindada lei científica até que precisamos rejeitá-la por que se apresentaram novos fatos que levaram a sua revisão. Evidentemente existem diferenças entre estas duas formas de crêr e no sentido alcançado acerca das coisas também. Destas diferenças tratarão outros textos.

Para os propósitos do presente texto, cabe a importante e decisiva constatação de que mesmo que exista uma verdade final, seja ela metafísica ou física, o ser humano por suas limitações não pode ter certeza dela. Por outro lado esta constatação significa que o sentido das coisas é "criado" pelo ser humano mesmo e não dependem de conhecer verdadeiramente. Este sentido e esta verdade podem (ou não) estar em conformidade com a (eventual) verdade ou sentido final. Ou seja, o que faz sentido para mim não é necessariamente a verdade e a verdade final não é necessariamente a fonte do sentido do ser humano.

O mais importante, no entanto, é a constatação de que não precisamos encontrar a verdade final acerca das coisas para que elas façam sentido. O mundo geocêntrico fazia sentido para o ser humano da época, mesmo não sendo verdadeiro. Hoje precisamos lidar com uma questão tão ou mais difícil que aquela, depois de Darwin o mundo não é mais antropocêntrico. O (ainda!) atual conflito e debate entre criancionismo e evolucionismo fala por si, cada qual reclama para si um fundamento melhor para o conhecimento acerca desta questão e nos dá conta da importância do sentido final único para existência humana.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O sentido das coisas I

Para os propósitos deste espaço, pode-se dizer que sentido é "tudo". O sentido das "coisas" está no final do conhecimento das coisas, assim como a falta de sentido de uma coisa está no início do conhecimento. É a falta de sentido de uma coisa que leva à busca do conhecimento acerca desta coisa. Coisa, aqui, pode ser de tudo: objetos visíveis e invisíveis, seres vivos, um comportamento ou uma ação, pensamentos e ideias e também Deus. Tudo o que o ser humano colocou como um "objeto" de conhecimento.

Quando eu vejo a "coisa" que eu identifico como lápis, ela faz sentido porque eu sei, por conhecimento adquirido anteriormente, qual é a forma de um lápis, sei que normalmente ele é de madeira e deve ter grafite para que se possa escrever com ele. Mas um "lápis" sem grafite não faz sentido, esta coisa parece lápis mas não é. O sentido desta coisa é restaurado quando, ao examinar melhor ou me informar melhor, a identifico como uma agulha de tricô fabricada de madeira. Alguma coisa que não seja possível relacionar a um conhecimento prévio, a um sentido prévio, gera a busca pelo conhecimento que restaure a ordem ou sentido perdido.

O sentido de uma coisa nunca vista antes deve ser criado. O sentido de uma coisa conhecida pode ser quebrado por uma nova experiência, um fato novo ou uma nova ideia. Uma coisa sem sentido gera a necessidade de adquirir ou restaurar o sentido, pois não é possível para o ser humano viver de maneira saudável se não for possível alcançar o sentido, não só das coisas individuais mas também do todo, ou seja, a relação com sentido de todos os sentidos individuais.

Estabelecer relações com sentido entre as coisas ou a respeito delas é conhecimento. Na busca dessas relações, o ser humano, ao longo da sua história, reconheceu e utilizou formas de conhecimento e de sentido que, grosso modo, são: o senso comum, os deuses e as ciências. Todas estas formas são maneiras de relacionar as coisas com sentido. Cada uma delas têm regras válidas segundo as quais o sentido das coisas "surge". Por exemplo, o método científico determina o que faz ou não sentido nas ciências formais. O conhecimento no senso comum, ao contrário do científico, é obtido de forma bastante solta, sem regras fixas. O conhecimento religioso na maioria dos casos têm como fundamento a divindade e/ou um escrito sagrado que confere sentido às coisas. Estas três formas coexistem no ser humano mas, nem sempre, elas estão em harmonia ou sintonia. Por diversas razões existem zonas onde elas se apóiam e também existem zonas de confronto. As zonas de conflito podem gerar no ser humano real, tensões diversas e pode chegar até a quebra do sentido como um todo. O sentido de conjunto no todo das coisas tem a ver com o sentido da vida e da existência dos indivíduos humanos e da comunidade onde vivem.
A busca pelo sentido do todo é o desejo último do ser humano, consciente disso ou não.

Este Blog pretende se ocupar com este assunto de uma forma bastante abrangente a partir das diversas fontes de sentido e conhecimento, sejam elas as ciências, o senso comum ou a(s) religião(ões). A intenção é explorar as possibilidades de uma relação inter ou transdisciplinar com sentido para o todo.

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