terça-feira, 28 de julho de 2009

O sentido das coisas II

As coisas “reclamam” por sentido, elas querem ser conhecidas, como comentei em "O sentido das coisas I". Mas é importante notarmos que, ao contrário do que esta afirmação parece dizer, no fundo, é o ser humano que não consegue conviver com algo sem sentido, com algo que ainda não foi relacionado e incorporado com sentido ao todo do seu conhecimento. Por isto ele propõe, testa e aceita teorias científicas, teorias filosóficas ou de um jeito "solto" os conhecimentos e as experiências diárias, etc., tudo com o objetivo de incorporar com sentido o novo conhecimento ao conhecimento já anteriormente adquirido.

Quando o ser humano encontra o sentido de uma coisa, ele o aceita como "a verdade" acerca desta coisa. Encontrar o sentido ou o conhecimento verdadeiro é o seu desejo pois acredita que é este conhecimento que lhe daria o sentido final, um conhecimento ao qual ele não precisaria e nem poderia acrescentar algo a mais. Neste conhecimento o ser humano estaria seguro. Quanto mais abrangente este conhecimento, maior a sua segurança e tanto maior também o sentido do "todo". O ser humano ao encontrar o sentido, além de segurança, percebe também alegria e outras reações "emocionais" que são manifestações para além do puramente racional ou lógico. Nesse contexto, não tem como não lembrar do Arquimedes gritando "Eureka!" pela rua. Em outras palavras, encontrar o sentido das coisas é algo que "atinge" o ser humano como um todo.

Mas onde está o sentido verdadeiro das coisas, como alcançar o conhecimento verdadeiro? Esta é uma das grandes questões da humanidade e que levou à grandes avanços no conhecimento e à muitos debates em todas as áreas do conhecimento. Achou-se em épocas antigas, e ainda se acha hoje, que o sentido final estaria em algum do muitos deuses que se nos apresentam. Achou-se no final do século XIX e início do século XX, e ainda se acha hoje, que a ciência tem a única forma de alcançar o sentido real e final das coisas. Ambas as formas têm o sentido ou a verdade acerca das coisas "imposta" de fora do ser humano. De um lado, os deuses dizem a coisa verdadeira e, pelo outro lado, a ciência com o seu método, como que arranca das coisas a sua verdade.

Os desenvolvimentos na busca pela verdade e pelo sentido das coisas durante o século XX, têm, no entanto, levado a uma constatação que é, pelo menos, conflitante se não paradoxal. O ser humano não tem como conhecer de forma verdadeira e final, ele precisa se contentar com a incerteza do seu conhecimento, essa incerteza é decorrente das limitações humanas. Isto implica que, mesmo que exista um Deus que diga a verdade última, eu não posso ter certeza disso. Mesmo que exista ou venha a existir um método científico que me revele o sentido último das coisas, não posso ter certeza disso. No estágio atual do pensamento, precisamos continuar crendo que a "lei" de um deus qualquer diz a verdade acerca de uma coisa. Assim também, cremos numa determindada lei científica até que precisamos rejeitá-la por que se apresentaram novos fatos que levaram a sua revisão. Evidentemente existem diferenças entre estas duas formas de crêr e no sentido alcançado acerca das coisas também. Destas diferenças tratarão outros textos.

Para os propósitos do presente texto, cabe a importante e decisiva constatação de que mesmo que exista uma verdade final, seja ela metafísica ou física, o ser humano por suas limitações não pode ter certeza dela. Por outro lado esta constatação significa que o sentido das coisas é "criado" pelo ser humano mesmo e não dependem de conhecer verdadeiramente. Este sentido e esta verdade podem (ou não) estar em conformidade com a (eventual) verdade ou sentido final. Ou seja, o que faz sentido para mim não é necessariamente a verdade e a verdade final não é necessariamente a fonte do sentido do ser humano.

O mais importante, no entanto, é a constatação de que não precisamos encontrar a verdade final acerca das coisas para que elas façam sentido. O mundo geocêntrico fazia sentido para o ser humano da época, mesmo não sendo verdadeiro. Hoje precisamos lidar com uma questão tão ou mais difícil que aquela, depois de Darwin o mundo não é mais antropocêntrico. O (ainda!) atual conflito e debate entre criancionismo e evolucionismo fala por si, cada qual reclama para si um fundamento melhor para o conhecimento acerca desta questão e nos dá conta da importância do sentido final único para existência humana.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O sentido das coisas I

Para os propósitos deste espaço, pode-se dizer que sentido é "tudo". O sentido das "coisas" está no final do conhecimento das coisas, assim como a falta de sentido de uma coisa está no início do conhecimento. É a falta de sentido de uma coisa que leva à busca do conhecimento acerca desta coisa. Coisa, aqui, pode ser de tudo: objetos visíveis e invisíveis, seres vivos, um comportamento ou uma ação, pensamentos e ideias e também Deus. Tudo o que o ser humano colocou como um "objeto" de conhecimento.

Quando eu vejo a "coisa" que eu identifico como lápis, ela faz sentido porque eu sei, por conhecimento adquirido anteriormente, qual é a forma de um lápis, sei que normalmente ele é de madeira e deve ter grafite para que se possa escrever com ele. Mas um "lápis" sem grafite não faz sentido, esta coisa parece lápis mas não é. O sentido desta coisa é restaurado quando, ao examinar melhor ou me informar melhor, a identifico como uma agulha de tricô fabricada de madeira. Alguma coisa que não seja possível relacionar a um conhecimento prévio, a um sentido prévio, gera a busca pelo conhecimento que restaure a ordem ou sentido perdido.

O sentido de uma coisa nunca vista antes deve ser criado. O sentido de uma coisa conhecida pode ser quebrado por uma nova experiência, um fato novo ou uma nova ideia. Uma coisa sem sentido gera a necessidade de adquirir ou restaurar o sentido, pois não é possível para o ser humano viver de maneira saudável se não for possível alcançar o sentido, não só das coisas individuais mas também do todo, ou seja, a relação com sentido de todos os sentidos individuais.

Estabelecer relações com sentido entre as coisas ou a respeito delas é conhecimento. Na busca dessas relações, o ser humano, ao longo da sua história, reconheceu e utilizou formas de conhecimento e de sentido que, grosso modo, são: o senso comum, os deuses e as ciências. Todas estas formas são maneiras de relacionar as coisas com sentido. Cada uma delas têm regras válidas segundo as quais o sentido das coisas "surge". Por exemplo, o método científico determina o que faz ou não sentido nas ciências formais. O conhecimento no senso comum, ao contrário do científico, é obtido de forma bastante solta, sem regras fixas. O conhecimento religioso na maioria dos casos têm como fundamento a divindade e/ou um escrito sagrado que confere sentido às coisas. Estas três formas coexistem no ser humano mas, nem sempre, elas estão em harmonia ou sintonia. Por diversas razões existem zonas onde elas se apóiam e também existem zonas de confronto. As zonas de conflito podem gerar no ser humano real, tensões diversas e pode chegar até a quebra do sentido como um todo. O sentido de conjunto no todo das coisas tem a ver com o sentido da vida e da existência dos indivíduos humanos e da comunidade onde vivem.
A busca pelo sentido do todo é o desejo último do ser humano, consciente disso ou não.

Este Blog pretende se ocupar com este assunto de uma forma bastante abrangente a partir das diversas fontes de sentido e conhecimento, sejam elas as ciências, o senso comum ou a(s) religião(ões). A intenção é explorar as possibilidades de uma relação inter ou transdisciplinar com sentido para o todo.

Texto relacionado: O sentido das coisas II