sábado, 26 de setembro de 2009

Ciência contra Religião e vice-versa

Ciência contra a religião e/ou religião contra a ciência é uma disputa antiga. Pode-se dizer que ela começou quando a ciência proclamou a sua independência da filosofia e da religião. Muitas vezes essa questão também é colocada como sendo a razão contra a fé e vice-versa. Neste caso a disputa é ainda mais antiga, ela iniciou com o surgimento da filosofia grega "opondo-se" à mitologia.
Em nossa época a disputa tem recebido estímulos de "todos" os lados. Por exemplo, nas questões éticas emergentes da pesquisa científica, principalmente genética. Ou, a partir do pensamento de Darwin que tem recebido destaque durante este ano o que reacendeu a defesa do criacionismo por parte de alguns setores da religião cristã. Ou, ainda, ações como o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque, atribuídas ao fanatismo religioso, inflamam as reações contra a religião por parte daqueles que consideram a religião a causa de todos os males. Aprofundam-se os fundamentalismos, sejam eles "religiosos" ou "científicos" e o foco da disputa cai sobre as diferenças e incompatibilidades entre a religião e a ciência.

Ao contrário de outras épocas, hoje sabemos que não é possível conhecer a verdade final nem pela religião e nem pela ciência. Ou seja, ciência e religião crêem que o que conhecem é verdade e por isto o conjunto do seu saber faz sentido. A ciência sabe que o seu conhecimento, para ser científico (segundo Popper), precisa ser refutável. A religião sabe que seu conhecimento é baseado na crença. Nenhuma das formas de conhecer pode se livrar da incerteza e da necessidade de crer em algum momento no seu processo de conhecimento. Por que, então, existe disputa entre as formas de conhecer?

A disputa se instala quando a incerteza de todo conhecimento é "esquecida" e quando, então, a crença dá lugar à certeza. Crer significa aceitar algo como verdade mesmo sabendo que talvez o conhecimento acerca da coisa não seja verdade. Ou seja, a crença tem como "ingrediente" necessário a incerteza. No momento que é retirada a dúvida, a crença deixa de existir instalando-se a verdade final. O conhecimento verdadeiro final (sem possibilidade de ser questionado) é dogmático e ditatorial, ele exige exclusividade e ele precisa destruir o concorrente. Nos fundamentalismos, a incapacidade humana de conhecer de forma definitiva é ignorada e a sua crença é elevada à verdade final. Toda crítica se torna impossível e a disputa cega se instala, impedindo assim um diálogo frutífero com vistas à cooperação mútua e à integração saudável dos lados científico e religioso do ser humano e da sua comunidade. Fica a pergunta: esta disputa é necessária?

São possíveis duas respostas. De um lado, a disputa é necessária se a pergunta é respondida a partir da maioria dos sistemas de sentido vigentes na ciência e na religião. A resposta é sim, tanto mais quanto mais próximo o sistema de sentido estiver do fundamentalismo, seja ele religioso o científico (cientificismo). A resposta também é sim, mesmo lá onde a relação entre a ciência e a religião não assume o aspecto de disputa e fica no nível da incompatibilidade. Os dois lados são mantidos "em paz", porém, não chegam a ser reconcilidados um com o outro, o que significa a fragmentação do conhecimento, do ser humano e da comunidade.
Por outro lado, esta relação não precisa ser de conflito. É possível criar um sistema de sentido que inclua todas as formas de conhecer. Isto porque, não existe (hoje sabemos) um tipo de conhecimento que garanta a verdade a partir do qual se possa decidir qual é o tipo de conhecimento (mais) correto. Mesmo que exista a verdade, ela não pode ser alcançada, e todo conhecimento adquirido na história humana, classificado em ciência, religião, arte, etc., busca a verdade final inalcançável. Por isso é mais coerente com o atual estágio do conhecimento, aceitar que tanto a religião como a ciência (e todos os outros tipos de conhecimentos humanos), têm algo a dizer sobre a vida do todo. Em outras palavras, todo o conhecimento é criação humana assim como toda a classificação dos tipos de conhecimento. Portanto, se foi possível criar o(s) sistema(s) de sentido vigente(s), que levaram à fragmentação do conhecimento e do ser humano mesmo, é possível também criar um sistema de sentido integrador ou, pelo menos, que não incentive a fragmentação.

Num sistema de sentido integrador tanto a ciência como a religião (e todos os outros tipos de conhecimento) são "humildes".  Ou seja, cada qual reconhece que a sua certeza não tem o fundamento necessário para poder excluir a certeza do outro, porém, cada qual pode e deve criticar a certeza do outro. O resultado é o processo de depuração mútua em direção ao conhecimento final, mesmo que ele seja inalcançável como tal.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Deus existe?

A última frase de um texto anterior (O que significa a palavra "Deus"?), diz: "Portanto, no sentido aqui proposto, todos nós temos em nossa vida real um Deus, dando-lhe este nome ou não". Obviamente esta afirmação é discutível a partir de outros sistemas de sentido pessoais e comunitários. O mesmo acontece com a pergunta se Deus existe. A partir de cada um dos diversos sistemas a resposta a ela pode ser sim ou não, dependendo não só do significado da palavra "Deus" como também da palavra "existe".

O que tem existência? Inquestionável, nos parece, a existência das coisas com que nos deparamos em nosso dia-a-dia, como as árvores, pedras, os seres humanos e as suas criações técnicas ou não. Ainda hoje as coisas que podem ser medidas e verificadas segundo o ideal da ciência no final do séc. XIX, nos parecem mais reais do que o que não pode ser medido, pesado, calculado, etc. Também nos parece ser existente a "base" física dos pensamentos humanos, o cérebro, os neurônios com seus processos químico-elétricos, etc. Mas, o pensamento que resulta dos processos cerebrais também existe? Acredito que todos concordamos que os pensamentos que temos "existem", mesmo que seja muito difícil quantificá-los como é possível fazer com o movimento de uma esfera de aço, por exemplo. Ainda que nos pareça mais real o que pode ser apreendido desta forma, já não é mais possível limitar a existência das coisas à ela. A ciência subatômica, por exemplo, impõem uma nova forma de pensar a realidade existente. A existência no mundo subatômico, por enquanto, faz melhor sentido quando apreendido pela matemática probabilística. É um mundo diferente e dependente do observador.

Assim, a existência das coisas é dependente do sistema de sentido do observador. É o observador com o seu sistema de sentido que dá existência ou não às coisas. Com Deus não é diferente, o sistema de sentido do ser humano religioso "permite" que exista algo como um Deus, enquanto que o sistema de sentido de um ateu não "permite" que exista, por exemplo, o Deus dos teístas e, ao mesmo tempo, pode estar "cego" para o seu próprio Deus. Portanto, como o fundamento para o sistema de sentido e da vida do ser humano, Deus existe. Obviamente, entendendo a palavra Deus com o sentido proposto aqui.

Por outro lado, e ao mesmo tempo, essa existência de Deus não é como a da pedra ou mesmo de um ser humano superior, que são passíveis de medições. Por isso também não é possível provar a existência de Deus pelo "resultado" de sua suposta ação. Por exemplo, frustrada será a tentativa do cristão que quer provar a existência de (seu) Deus afirmando que Deus responde às suas rezas. O Deus cristão não responde à todas as orações, na verdade, é impossível afirmar (de forma final) que ele tenha respondido a qualquer reza. Para o crente que orou, a cura de uma pessoa foi obra divina, para o descrente a mesma cura é resultado de processos outros sem a interferência divina, por mais desconhecidos ou estranhos que eles sejam. A cura ou a não cura de pessoas doentes como resposta a uma reza não prova a existência ou não-existência de um Deus, pois não há como decidir de forma final sobre isto. Portanto, Deus não está acessível às medições científicas nem aberto à observação dos resultados da sua eventual interferência. Um Deus assim, não existe.

Portanto, a partir do ponto de vista aqui proposto, Deus tem existência real enquanto fundamento de todo o conhecimento e da vida. Por isso, tanto os que aceitam a existência de Deus como também os ateus, "precisam" defender cada qual o seu Deus, como se estivessem (e estão) defendendo a própria vida. Quanto mais convencido estiver da sua existência e da veracidade do seu sistema de sentido, tanto mais o ser humano deísta, teísta, ateu, etc., defenderá o seu Deus, que é razão das sempre atuais disputas entre eles. Em si, esta (re)ação é totalmente natural e esperada pois é a conservação da própria vida que está em jogo. Porém, se for esquecido que todo conhecimento, tanto acerca da existência quanto o da não-existência de Deus é provisório, pode instalar-se a verdade final e com ela a necessidade de destruir o fundamento que afirma o contrário. Em lugar de destruir, a atitude que procede do reconhecimento da provisoriedade de todo conhecimento é a de se deixar questionar e desafiar positivamente pelo fundamento do outro, e, desta maneira, crescer no todo do conhecimento em busca da verdade.