quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Deus é desnecessário para explicar a criação?

 “Deus é desnecessário para explicar a criação, diz Hawking”
Esse é o título de uma notícia (para anunciar o novo livro de Hawking) que li há pouco no estadão.com.br: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,deus-e-desnecessario-para-explicar-a-criacao-diz-hawking,604250,0.htm

A ainda atual discussão Deus e criação evidencia, na minha opinião, um diálogo "religião e ciência" sem futuro. Para haver a possibilidade de um diálogo frutífero entre as religiões, entre a religião e a ciência, é preciso repensarmos o conceito de Deus.
Essa notícia aponta para a ideia que tenho defendido nesse blog, que Deus é uma “necessidade” humana. É claro, Deus aqui não é o Deus de uma determinada religião mesmo que, evidentemente, não o exclua (leia: O que significa a palavra "Deus"? ).

Enquanto insistirmos que Deus é (apenas) o Deus cristão, ou o Deus muçulmano, ou o Deus dos indígenas, ou qualquer outro Deus associado a alguma religião estabelecida, teremos dificuldades de perceber a “existência” de Deus em outros lugares, por exemplo, nas ideologias, nas filosofias da vida, no Estado e na ciência. Também teremos difuculdade de perceber a “religiosidade” a ele associado. Para cada um desses, o Deus do outro não passa de (no máximo) um ídolo que deve ser combatido.

Por isso também Hawking (e outros) pode/precisa dizer que “Deus é desnecessário para explicar a criação”. Ele pode dizer isso pois já existe algo, além dos Deuses das tradições religiosas, que pode propor outras soluções para os grandes mistérios do Universo. Algo, segundo ele, mais confiável. A ciência faz essa reivindicação e não dá para ignorar isso. E ele precisa dizer isso, pois, para ele, as evidências e seu sistema de sentido "exige" isso dele.

Mas Hawking não pode simplesmente tirar Deus sem colocar algo no seu lugar. O lugar de Deus na vida dos humanos não pode simplesmente não-existir, nesse caso ele substitui Deus por uma lei física. Mesmo que já seja possível afirmar que o(s) Deus(es) das grandes e pequenas religiões é(são) redundante(s) na questão da criação, não é possível afirmar a não-necessidade de Deus mesmo.

A notícia segue: 
"Porque existe uma lei como a gravidade, o Universo pode e deve criar-se a partir do nada. Criação espontânea é a razão para haver alguma coisa em vez de nada, para que o Universo exista, para que nós existamos", escreve Hawking. "Não é necessário invocar Deus para acender o pavio e pôr o Universo em movimento". 
[...] 
Desde 1974, o cientista trabalha para casar as duas pedras angulares da física - a Teoria da Relatividade Geral, que trata de fenômenos de larga escala e da força da gravidade, e a Teoria Quântica, que cobre as interações entre partículas subatômicas. 
Seu comentário mais recente sugere que ele rompeu com seu ponto de vista anterior sobre a religião. Antes, ele havia escrito que as leis da física apenas diziam que não era preciso acreditar numa intervenção divina. 

É da “natureza” da ciência que ela busque a explicação e o controle sobre tudo. A busca de Hawking pelo casamento das teorias mencionadas ilustra isso. Encontrar e reconhecer uma "Teoria do Todo" seria colocar uma explicação final, um Deus. No momento em que se aceita uma lei que explica tudo, ela se torna o absoluto diante do qual precisamos nos curvar, ela se torna “religiosa” e seus adeptos se tornam “religiosos”.

No atual sistema de sentido, os diferentes Deuses precisam se excluir mutuamente para manter a sua verdade. Por outro lado, um sistema de sentido no qual se aceita que o Deus do outro (e seu grupo), mesmo que de forma incompleta, também dá a resposta adequada ao que o reverencia, torna mais fácil o diálogo. Se aquilo que em última instância confere sentido à nossa existência é Deus, então todos temos um Deus (não importa o seu nome). Esta forma de ver estas coisas, onde a verdade de um Deus não está em algum tipo de “prova” e sim no sentido que ele confere ao conjunto, fica mais fácil aceitar o outro e, assim, de forma adulta, discutir questões relevantes para as pessoas e seu mundo. Questões éticas (também para as religiões) precisam ser resolvidas a partir da interação de todos os Deuses, para o bem do indivíduo e seu mundo. Uma característica comum a todos os Deuses (inclusive da ciência) é o bem estar, a cura, a salvação da humanidade, porém, nessa busca a prática predominante até agora tem sido a da destruição ou “diminuição” do outro.

No atual estágio do conhecimento religioso e filosófico, da filosofia da ciência, da ciência, etc., não é possível afirmar uma verdade irrefutável de qualquer uma delas, sempre existe um "ingrediente" incômodo mas necessário, a fé. Fé aqui não tem nada a ver com algum credo específico, mas é aquele “ingrediente” do conhecimento humano necessário para, de alguma forma, alcançar o sentido do conjunto de todos os conhecimentos, pois não existe uma prova ou evidência final. A fé é incômoda porque queremos ter certeza última das coisas e ela nos “lembra” o tempo todo que essa certeza final não é possível. Ela é necessária para impedir que alguma lei (religiosa, científica, etc.) se torne em Deus. O que conhecemos sobre Deus ainda não é Deus. A fé torna possível o sentido de conjunto dos meus conhecimentos e abre espaço para o diálogo e a aceitação mútua, pois impede que aquilo que sei sobre o meu Deus seja elevado a Deus mesmo. Quando sei que o que sei acerca do meu Deus não é Deus mesmo, a pergunta sobre se o mundo surgiu do nada por meio do Deus cristão ou por meio lei da gravidade perde a sua relevância. A resposta à essa pergunta só é relevante enquanto “prova” de uma verdade que não é possível provar.

Mas, e por isso mesmo, o diálogo é fundamental.

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